sexta-feira, 12 de maio de 2017

Reflexões a cerca da violência institucional em seis cenas

Cena 1

Um grupo acadêmico resolve organizar um evento que discuta as especificidades e desafios das pessoas trans. Entre eles e elas há uma pessoa trans que sugere uma outra abordagem afim de reduzir a violência simbólica e o local de subalternidade histórica sob a égide do violento "objeto de pesquisa". Ela é rechaçada!

Cena 2

O grupo é formado por cis-doutores, em sua maioria, com especial participação masculinista.

Cena 3

Lançam o folder do evento; tudo se vê, menos as cores da bandeira trans - num evento que vai tratar sobre transexualidade - mas as cores do arco-íris são estampadas. O mito do termo-guarda chuva - que, neste caso específico, apaga e inviabiliza as singularidades e as especificidades trans - é (re)ativado.

Cena 4

Embora a pessoa convidada seja extremamente querida, o que se efetua pela organização é a perpetuação do modus operandi histórico e hegemônico da academia. É difícil combater as forças reativas institucionais que historicamente efetivaram o paradigma especifico de visibilidade intelectual na figura da doutoridade; homem, cis, branco... há ainda a desestabilização do sujeito-objeto em contraposição à representatividade do especialista-pesquisador. Nenhum problema, se não fosse um evento chamado TRANSfronteiras (me parece bastante simbólico).

Cena 5

A ficha de inscrição prevê escolaridade mínima "ensino médio", mas num evento sobre pessoas trans provavelmente os organizadores desconhecem que relevante percentagem dessas pessoas não podem estar na escola em função da transfobia estrutural, institucional e cultural. Além disso, não há qualquer espaço para uso do nome social, uma realidade legal mas pouco difundida no meio "mainstream". Por consequência, havia a necessidade de vínculo institucional restringindo ainda mais o público alvo.

Cena 6

Depois de reclamar publicamente, mudam a ficha de inscrição, mas o modus operandi...

Conclusão

A velha política só "mudou de roupa", ela continua a manutenção de seus ideais colonizadores, violentos e assimétricos pautados no privilégio da figura do especialista e na subalternidade do sujeito-objeto, este ou esta operando muitas vezes na qualidade de coisa. Novamente: É difícil produzir algo novo quando a velha política institucional opera suas forças reativas restringindo certas existências ao seu lugar de subalternidade histórica. Só a potência nômade-antropofágica nos une! A luta continua, mais só do nunca! Mas continua!

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